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Número 3 e 4

  • "Crónica convencional por espaços e tempos não convencionais", por José Escaleira (pp. 33-37)

Um não sei quê de crónica, um não sei quê de profético, um não sei quê de nós, emerge no caminho para o final do segundo milénio, como uma ténue concessão da Arte ao quotidiano.
     Ao viajar por esse quotidiano próximo passado, percorrendo o espaço das realizações culturais acontecidas em Viana do Castelo na primeira metade do ano 99, fui-me permitindo esboçar uma espiral temporal de reflexões, como se de impressões de viagem se tratassem. Este percurso (físico ou virtual) trouxe na peugada uma marca de fim de ciclo de mil anos, digna de ser anunciada por um qualquer Nostradamus clonado, não tão lunático como poderia parecer o original.
     Do cansaço da digressão, fui aproveitando o remanso de seis estações, onde as convenções ou a falta delas me foram alimentando a reflexão naquele tempo de espera pela partida para a estação seguinte.

     1ª Estação

     Qual é o poder de previsibilidade do dramaturgo?
     Qual é o sentido de oportunidade do organizador de repertório de uma companhia de teatro?
     Qual é a capacidade do encenador para ir de encontro ao real?
     Que sentimento recôndito desperta, em dado momento, no actor para que ele seja capaz de nos mostrar aquilo que esperamos?

     O Teatro responde-nos.
     Mas poderá o Teatro do aqui e do agora cumprir a função de nos conduzir a outras dimensões?
     Estreado em Viana do Castelo no mês de Março, O Executor 14, produzido pelo Teatro do Noroeste e encenado por Xúlio Lago, foi de encontro aos cornos da realidade. Da realidade presente do momento da estreia, em que o Kosovo clamava contra a barbárie da limpeza étnica e a sociedade civil de Belgrado reagia aos bombardeamentos educados dos amigos americanos e da realidade futura de Setembro, em que o vírus do genocídio se mudou de armas e bagagens para Timor Oriental, onde os amigos americanos o demoraram a descobrir.
     E assim, presente na Praça da República, de Viana do Castelo, o Teatro esteve no passado de todas as guerras fratricidas, esteve no presente das guerras que os media nos vendem, esteve no futuro próximo das guerras da intolerância, da mentira e da hipocrisia e esteve no futuro longínquo saiba-se lá de quê.
Da catedral da Arte pela Arte – o Teatro Municipal Sá de Miranda - o Teatro do Noroeste foi para a praça pública, para a catedral cem vezes cívica dos antigos Paços do Concelho (agora sem os barrocos apliques que alguém um dia defendeu contra os desvarios da arte moderna) teimando em fazer renascer esta efémera arte do eterno, mil vezes amordaçada, mil vezes em crise, mil vezes pujante. 
     Neste espaço/tempo de comunicação em que o teatro sobrevive, não podemos deixar de perceber que ali ao lado, as tecnologias da informação nos colocam simultaneamente em duas ou mais dimensões, numa altura em que o conhecido só o é enquanto os media tecnologicamente apetrechados o queiram. Assim o teatro cumpra também essa função com esclarecidos propósitos de nos fazer reflectir sobre o real.

2.ª Estação

     A necessidade de obras no velho teatro oitocentista e não só, trouxe também aos antigos Paços do Concelho o paradoxo do aqui e do agora, mostrado a partir da peça Perdidos nos Apalaches (Brincadeiras Quânticas), de Sanchis Sinisterra. Aqui, em Junho, o Teatro assumiu deliberadamente a problemática da dimensão como pretexto para outras (des)convencio-nalidades.
     Esta fuga à convenção do velho espaço à italiana permite nos tempos que correm um encontro connosco e com as motivações que nos levam ao teatro. 
     No espaço teatral (ou melhor, no espaço onde se convencionou desenrolar o espectáculo de teatro) todos nos comportamos em duas dimensões: como actores e como espectadores. A verdade é que, nesta dita era da democratização da cultura, mais difícil se torna descobrirmos a função que verdadeiramente desempenhamos: se a de sermos vistos, se a de vermos.
     Em épocas passadas a disposição dos lugares no teatro reflectia a hierarquia social. O ir ao teatro para ver, para ser visto, ou para ser visto a ver era uma função social compreendida e exercitada. Agora, por convenção, vamos ao teatro para ver, embora a prática esteja longe disso. Peças como estas talvez nos ajudem a recuperar a verdade dos factos. Perdidos nos Apalaches contribui para que melhor percebamos a realidade, ao sermos integrados na trama da peça como associados do Clube de Divulgação Cultural Amadeu Pimentel, ali presentes para participar no acto social que é a assistência a uma conferência (ou a um espectáculo de teatro). Vemos e vemo-nos, porque o mestre sala faz questão disso.
     Por outro lado, não devemos esquecer-nos, olhando para nós próprios, que o lazer e o andar entre as gentes é também uma actividade social, convencionada. Nos novos espaços de representação social, onde incluo as catedrais de consumo, milhares de humanos cumprem a sua actividade de exibição quotidiana, vestindo-se de forma adequada.
     Vestimo-nos adequadamente para ir ao centro comercial, ao restaurante, ao futebol, à inauguração da exposição, à conferência, ao comício, à missa, ao tribunal, ao médico, ao advogado, ao casamento, ao baptizado, ao funeral, a isto, àquilo, para a manifestação Por Timor, ...para o trabalho, etc., etc..
     Vamos de encontro à Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord que escreve: “a fase presente da ocupação total da vida social pelos resultados acumulados da economia conduz a um deslizar generalizado do ter em parecer, de que  todo o “ter” efectivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua função última”.

3ª Estação

     Pode um espectáculo de teatro ser trabalhado como um espectáculo de magia em close-up, em que o mágico manipula a realidade/ilusão em frente dos olhos do espectador?
     Poderá uma peça de teatro fazer-nos acreditar que afinal somos actores e actrizes, ao mesmo tempo que espectadores?
     As Regras da Arte de Bem Viver na Sociedade Moderna, de Jean-Luc Lagarce, estreada em Junho, abriu-nos a porta para um mundo de regras de etiqueta e de boas maneiras permitindo uma tomada de consciência, no final do século XX, da incoerência e do desmembramento sublime a que chegamos. Ou melhor, a que chegou uma sociedade onde o que era um procedimento de regulação social, passou a ser um conjunto de didascálias sopradas no palco do espectáculo social por um qualquer ponto de serviço.
 Nesta peça de Lagarce, as actrizes tiram de dentro da sua interpretação os truques da velha sociedade, manipulando a realidade por cima e em cima dos nossos olhos. E nós ali estamos, talvez sem percebermos que também no quotidiano grande parte das regras não passam de ilusão, de passes de magia, escondendo um qualquer truque que só o mago entende. 
     Cada um de nós desempenha funções de cenário e de actor mudo numa cerimónia onde a senhora (dos gatos) dita as regras. Actores-espectadores habituados às regras que outras senhoras e senhores vão impondo, sorrimos e questionamo-nos (talvez) sobre o ser dessas convenções, se para isso nos restar espaço, pois, como escreve no programa José Martins, “as sementes das regras estão dentro de nós”.
     Através de reflexões proporcionadas por estas não convencionalidades, vamos descobrindo que as regras existem para que as pessoas se mostrem a cumpri-las e não tanto para que se cumpram. Quando o espectáculo acaba, as regras são arrumadas, como adereços utilizáveis, até ao próximo ritual em grupo, pois o rotineiro funcionamento social é sempre assegurado por via de outras regras mais biologicamente telúricas..
     Ficam, entretanto, as aparências. Feuerbach, no prefácio à segunda edição de A essência do Cristianismo dizia : “ E sem dúvida o nosso tempo...prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser...O que é sagrado para ele não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade...”

 4ª Estação

     Que dizer de uma ópera de Mozart em Teatro de Marionetas?
     Que pensar quando essa ópera de Mozart é apresentada numa Galeria de Arte?
     Fora de convenções assistimos a esta Flauta Mágica composta no último ano de vida de Mozart, com um libreto escrito a pensar nos ideais e convenções da Maçonaria.

Acolheu-a e acolheu-nos, em Maio, a Galeria Barca d’Artes, espaço do Centro Cultural do Alto Minho, local de culto onde a diversidade tem quebrado a covencionalidade dos espaços exclusivos. 
     Zarastro e seus sacerdotes, mestres-guardiões da paz e da fraternidade que esta ópera fantástica nos pretende transmitir, foram conduzidos pelas mãos de outros dois sacerdotes do teatro que escolheram Viana para seu ermitério – Alexandre Passos e Lucílio Valdez.
     O primeiro, especialista reconhecido em Teatro de Marionetas e o segundo, conhecido animador cultural e teatral, ao trazerem por suas mãos esta Flauta Mágica traziam à luz do dia este novo grupo, o seu Grupo de Teatro de Marionetas e Manipulação de Objectos.
 Entramos no domínio da pura convenção teatral. O efeito atingido é máximo quando objectos vulgares, bonecos, formas, coisas, ganham alma e são entendidos como humanos. A distanciação aqui é efectiva: o que digo não sou eu quem o diz, é o boneco.
     Daí, a sábia recuperação para a política espectáculo do estafado dito “enquanto cidadão, acho que sim, enquanto “membro do meu partido”, acho que não”. É como se o cidadão assumisse simultaneamente o papel de mani-pulador e de forma animada, predispondo-se a auto-manipular-se num espectáculo com dois actores em um: ele e o outro que sendo ele, não age como isso, continuando, no entanto a ser ele.

 Nesta ópera sem música, manipulava-se a paz, fazia-se desdenhar a Rainha da Noite, augurava-se um bom desfecho para Pamina e Tamino. Papagemno e Papagena também aproveitaram. A consciência colectiva precisa de flautas mágicas que em momentos como estes, em que o mito milenarista teima em sobreviver, despertem atitudes solidárias, capazes de fazer avançar a utopia.
     

     5ª Estação

     Existe em Viana um recanto agradável, baptizado não sei há quanto tempo, nem porquê como Praça da Erva.
     Esta polissémica erva tem acolhido na sua praça diversas manifestações artísticas, desde representações teatrais, feiras medievais recriadas, concertos vários, até ao conhecido Jazz na Praça da Erva que em todos os Julhos, tem dado notoriedade e imagem de marca a este recanto vianense.
     Neste ano de 99, quis a providência, através do guardião das águas celestes, que a chuva enviasse, nas últimas sessões, o Jazz na Praça da Erva para o auditório do Castelo de Santiago da Barra.
     Foi sem dúvida uma prenda do celestial Pedro ao anfitrião Francisco Sampaio, que viu em tão pouco espaço de tempo o seu castelo invadido primeiro, por hordas de comilões, nas tasquinhas das Festas Populares e ,depois, por  melómanos amantes do Jazz.
     Do passado surge, no outro canto da cidade, um outro espaço, talvez convencional, para o Jazz, mas já não tanto para as sessões da Assembleia Municipal de Viana do Castelo.
     No entanto, estes dois actos de criação colectiva – um concerto de Jazz e uma sessão da Assembleia Municipal - comportam características em comum, sendo a mais notória a  convencionada necessidade de improvisação para que a obra se cumpra.
     No Jazz, partindo de um tema central, num diálogo participado e por vezes aguerrido, os músicos vão improvisando, constituindo cada solo, por vezes, uma peça de alto valor estético.
     Quando, numa assembleia de cidadãos, os políticos eleitos tratam da coisa comum, improvisos com maior ou menor valor estético e baseados nos temas da agenda do dia, são atirados para a assembleia, deliciando o livro de actas e a plateia que segue atenta a discussão. 
     Não sei se António Pinho Vargas e Bernardo Sassetti1 , músicos que tivemos a felicidade de ouvir nas ditas sessões transferidas, têm correspondentes nos políticos da nossa praça, como estrelas da improvisação e da composição melódica. No entanto, espera-se que a administração da coisa pública, tal como a música, tenha, nos seus protagonistas, estrelas de criatividade política, de eficiência/eficácia, de dedicação/desprendimento e de um equilibrado sentido de gestão.
     E nesta sociedade de trocas, que também é democrática, algo há - ou se espera que haja - no outro lado dos nossos actos, quanto mais não seja para que nos incentive a continuar. O que os músicos vêem retribuído em discos vendidos e boas falas da crítica especializada, verão os políticos em votos futuros e no reconhecimento superior para cargos mais consentâneos com os seus desejos.
     Daí que no mundo da improvisação haja que ter um cuidado redobrado. Estou certo, no entanto, que os músicos de Jazz terão face à improvisação uma postura mais profissional.

     6ª Estação

     No espírito da afirmação de Lavoisier, “na terra nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, João Ricardo Oliveira, o mediático vianense auto-intitulado de Dr. Sound, apresentou-nos música não convencionalmente feita, partindo de objectos produzidos, consumidos e abandonados...e reciclados...e reutilizados. Isso foi em Maio na ala nova do Museu Municipal de Viana do Castelo.
     Como é sabido, a produção numa economia de mercado satisfaz planos estratégicos dos seus promotores, que se propõem retirar um determinado rendimento do capital investido, satisfazendo as necessidades dos consumidores.
     O socializado acto do consumo, por outro lado, permite que aqueles bens produzidos satisfaçam as necessidades dos consumidores, desaparecendo uns no acto do consumo, sendo outros passíveis de várias utilizações. 
     Como recordação física do processo, ficam no final, resíduos, basura, trash, poubelle, abfall, immondizia. São, afinal de contas, bens negativos capazes de causar efeitos perniciosos se não forem reduzidos, reciclados e reutilizados.
     Daí que o vianense Dr. Sound (Escolinha, para os amigos, antes de ir para Berlim, Nova York, Paris e Londres), transformasse o lixo em música. Nada de mais humano, nada de mais ecológico, nada de mais economicamente saudável.
     Numa performance urbana de fim de milénio, esperando, no entanto, que  não seja o lixo a única coisa que nos reste, tivemos oportunidade de assistir a uma viagem sonora no Espaço 15:03, onde profeticamente o lixo grita pelo estatuto de cidadania exigindo direito a tratamento de coisa útil(izável).
     Porque na produção escrita também certamente se geram desperdícios e inutilidades, paro por aqui, no lixo, esta minha espiral. Também não consegui encontrar mais estações no caminho, sob cujo abrigo pudesse continuar as minhas reflexões. Assim, quedei-me no lixo profético da esperança de não ser de lixo o nosso futuro.
    Feito a partir de, e com tantas incomunica-bilidades, poderá o lixo, se reutilizado, ser mais um meio de comunicação. Afinal, a não convencionalidade continua a surpreender o Homem.
     Mas no fim (ou princípio) de tudo, vindo do fundo dos rituais das cavernas que o futuro Diónisos apadrinharia, o espectáculo, como porta aberta à tão humana criatividade, continua a ser o guardião do Graal. Do Graal que encerra o segredo da catarse colectiva, único elemento capaz de realizar e revitalizar, pela solidariedade da comunicação, o equilíbrio necessário à manutenção da espécie.

(1) Bernardo Sassetti, dias depois de ter actuado em Viana do Castelo, apresentou-se no Centro Cultural de Belém. Tendo sido programado para o ar livre e como chovesse, o Diário de Notícias noticiava em meia página que o dito pianista tinha sido obrigado, com muita pena do público, a tocar no interior. Percebi com isto que o direito de um Festival ser noticiado não depende da chuva, nem do artista, nem do tipo de música, nem do mês em que é realizado, mas de ......

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CCAM,
13/02/2012, 08:42